
E os pensamentos não param.Eu poderia ter escolhido uma forma mais rápida.
Queria que não desse tempo de pensar.
Um tiro na cabeça e pronto.
Eu ia embora sem pensar em como cheguei aqui.
Como cheguei aqui?
Será que foi porque ele não me abraçou mais forte?
Ou será que foi por causa de toda aquela confusão ao chegar em casa? Problemas com a minha principal voz feminina e com minha família. Toda ela.
Principalmente com ela. Que me pertuba a cada indireta. A cada gesto malicioso.
O infinito incomodo que ela me causa.
Como vim parar aqui? Depois de seis comprimidos que agora parecem ter atingido meu coração e eu me pergunto por quê.
Eu poderia ter fugido, e enganar todo mundo. Eu e ele. Nós íamos enganar a todos e rir deles pelas costas. Iríamos nos fazer de andarilhos e nos amar por entre arbustos.
Um tiro no peito seria mais simples.
Não seis comprimidos.
Minha cabeça gira. E tudo parece tão lindo agora.
Até ela, com todos os defeitos, com todos os defeitos que encontrava em mim. Parece tão boa e tão bela. De fato ela é.
E todos os cômodos da casa mostram os momentos lindos que presenciaram. Esquecem as brigas, as discussões e os aborrecimentos. Só coisas lindas.
E eu aqui. A espera de meu calvário.
Tentei mais de uma vez, antes de ingeri-los, achar uma razão para não fazer isso.
Esqueci do sofrimento que ia causar. Que causarei. Dos amigos que ia deixar. Dos momentos que ia perder. NADA. Não vinha nada em mente. Eu só pensava no que eles pensam de mim, uma adolescente rebelde causando um milhão de problemas e não acrescentando nada pra ninguém. Isso ia mudar. Iam lembrar tudo de bom em mim e se eu não tivesse iam inventar. Só porque não se deve falar mal dos mortos. E eu. Eu ia morrer jovem, como sempre quis.
E agora. Agora eu não sei como eu fui tão fútil.
Porque todos que me amavam vão sofrer sim. Mas vai passar e todos vão continuar suas vidas. Eu não.
Eles deviam ter dito pra mim mais vezes o quanto me amavam. E, Deus, deviam ter me amado.
Não podiam simplesmente pensar que o cargo que eles tinham na minha vida os tornaria imortais para mim. Não podiam.
Eu não podia ter os envergonhado. Eu sei que não.
Eles nunca poderiam ter sentido vergonha.
Mas isso tudo vai passar. O sofrimento está prestes a ir embora. E ele. Eu sei que vai ficar por aqui vivendo a vida de uma maneira linda e melhor do que eu sempre vivi.
Eu ficarei eternizada nele, pois ele tem e mantêm meu coração salvo e seguro.
Deito-me na cama, sinto os lábios dele nos meus.

E fecho meus olhos lentamente. Meu pensamento começa a ficar nebuloso e tudo em minha volta para. Se estou com medo? Não. Estou curiosa.
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