quinta-feira, 15 de julho de 2010

Multipla escolha

Ele vinha andando pela avenida mais agitada daquela minha pacata cidadezinha.
Era de um sorriso fácil e de um olhar que eu não sei explicar o que era aquilo.
Vestia sobre seu pescoço um cachecol azul que combinava com seus olhos.
Distraído sorria.
Olhava para frente. Pro infinito.
Hoje, desconfio de que olhava pra dentro de si. Para ela. Que morava tão nele como ele próprio. Não tinha me visto ainda.
Os cabelos escuros faziam uma dança com o vento. Com o cenário.
Cenário esse que era belíssimo.
Ele sorria um sorriso tímido e sem graça. Culpado.
Eric me fitou.
Vinha em direção a mim. Que já me encontrava no lugar combinado.
No mesmo banco. Da mesma praça. No mesmo horário. Esperando pelo mesmo rapaz.
Sentou-se. Ao meu lado.
E disfarçadamente pousou uma de suas mãos sobre uma de minhas mãos, que se entrelaçaram.
Eu sempre o esperava com o coração na mão.
Sempre tinha certeza de que alguma coisa ia dar errado.
Mas eu era sempre a única coisa errada que podia dar.
Sempre era perfeito.
Mas aquele olhar dele... Aquela expressão não era como de costume.
Era perigosa.
E só de lembrar, hoje, sinto a mesma aflição que senti quando naquela tarde fria, bonita, a minha profecia se realizou.
Disse-me “Rebecca, sabe que lhe amo, e que nunca vou esquecê-la... Mas isso já foi longe demais. Você sabe que preciso ir embora. Por favor, não dificulte as coisas pra mim. Sabe como dói perde-la... Mas sabe que não tenho escolha”.
Ele estava tão enganado sobre mim. Ou se fazia de.
Eu não fazia idéia do que ele estava me falando. Era tudo tão distinto da realidade que eu havia criado sobre a nossa história de beijos e pecado.
Eu era a outra a tempos. Já havia me acostumado com isso. E gostava.
Por favor... não me julgue mal. Entenda que no lugar que eu me encontrava eu não podia reclamar muito. Apenas tentava conseguir um lugar onde eu pudesse me enconstar quando fizesse frio, ou quando fizesse solidão... Lá fora... Mesmo que esse lugar não estivesse disponivel todo tempo que eu quizesse... enfim...Era mais meu do que dela... assim eu pensava noutros outonos.
Mas, única coisa que eu sabia e concordava com ele, era que tudo aquilo já tinha ido longe demais. Mas isso foi há tempos. E ele nunca se queixara.
Tínhamos outros encontros. Mais íntimos.
Em outros lugares. Quando nos encontrávamos ali era para alguma breve conversa que não viesse trazer suspeita sobre nós dois. Era como um filme de James Bond, ou qualquer coisa assim, só que muito mais interessante.
Dito isso. Ele se foi.
E eu sabia que nada estava acabado. Ainda.
Eric me enlouquecia.
Ele tinha muitas escolhas. O que eu não sabia era sobre eu, ser a ultima.
Eu nunca dificultei nada. Eu só não resisti os encantos daquele homem que, vamos combinar, ninguém resistiria.
Ao contrário do que disse, Eric, nunca me perdeu. Sempre estive aqui. Perdida sem ele.
Eu poderia ter rido se não fosse tão desesperador. Pra ser sincera, é, eu quase ri quando naquela tarde ele me veio com aquela conversa torta.
Era muito mais que inusitado.
Era surreal. Eric me deixar. Sempre pensei nisso. Com medo.
Mas sempre foi uma idéia sem pé nem cabeça.
Dessa vez. Desolada, eu podia ver.



Uma idéia com pés, cabeça, pernas, braços, mãos, olhar, cachecol, se levantando e indo embora.

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