Geladas.
Como uma arma na mão de uma pessoa que sabe bem o que fazer. E sabe exatamente quem ferir.
Não me julgo – nem me iludo - uma santa nessa história toda.
No começo. Quando éramos só nós dois eu não dei o devido valor aquele carinha que só sabia me agradar e me encher de doces caricias.
Fui leviana com o coração de um jovem apaixonado.
Mas caro leitor, não me julgue mal. Eu nunca soube lidar com corações apaixonados.
Nem com o meu. Que dirá do dele... que eu nem sequer notava.
Eu era uma verdadeira dama ao lado do Edgar. Sempre o elogiava. O beijava. O acariciava e lhe mostrava o quanto era feliz de estar do seu lado.
Mas, acredito que esse seja meu maior problema. Eu estou sempre feliz ao lado da maioria dos rapazes. Não sou muito exigente quanto a isso. Não precisa ter músculos, inteligência ou posses (mas creio que ele tinha!). Basta que me ame e não tenha vergonha de demonstrar isso. Pensando bem... Não precisa me amar. Basta que demonstre.
Nunca fui exigente. Sentimento grátis. Puro. Esse sempre foi o meu lema. E como disse meu maior problema.
Então, Ed acreditava que tudo que eu sentia era recíproco, mas o que ele via era a mesma coisa que todos os outros viam. E eu não os culpo. Eu sou mesmo difícil de entender. Não exijo tratamento diferenciado. Não sou fresca. Sou amante da vida. E ele não queria isso. Mas também nunca soube de verdade o que eu era. A honestidade enrustida.
Do tipo que se você pergunta “Você me ama mesmo?”, vai escutar um belo ‘não’ seguido de um leve sorriso. Mas que nunca vai lhe dar motivos para duvidar do contrario.
Ed, depois de 3 meses de intermináveis noites mal dormidas e breves encontros cansou-se de meus atrasos, minhas renuncias e de meus devaneios.
Nos perdemos nos passos da vida. E agora nos encontramos para velar uma morte.
A minha morte. De tudo que fui antes de conhecê-lo e de tudo que agora sinto saudade em mim. A minha originalidade.
Ser igual aos outros nunca foi minha diversão.
O meu prazer era no novo. No inusitado e no desconhecido. Ed era isso.
Uma palavra da minha divertida cruzadinha que depois que descobri todas as letras perdeu completamente a graça e tive que partir para outra.
Desistir e parar, é bom saber, nunca foi o meu forte.
Ele era isso. Mais um em meio a tantos sorrisos, perfumes e objeções.
E agora, Ed tinha outra.
Ele foi o único dos meus que não pirou.
O Tony se casou com uma maluca que toca violão nas ruas do Brooklin, Antonella.

E depois de cinco meses com ela me mandou uma carta dizendo que ela só o fazia feliz porque tinha o meu sorriso e chamou-o de Tony uma vez. Foi nessa vez que ele a pediu em casamento. O nome dele é Eduardo. Não me peçam maiores explicações. Não sei por que cargas d’agua eu o chamava assim. Só sei que a maluca fez o mesmo.
O outro também não se deu bem na vida, o Bill, saudoso Bill. Sempre tão disposto. Tão bom e tão lindo. Aquele ar que ele tinha de homem vivido, de que passou a vida toda experimentando mulheres até encontrar a mim sempre me aguçava a soberba. E eu adorava aqueles braços. Aquele corpo e o sexo... O sexo era tão bom. Bill.
Bill perdeu-se em meus encantos – palavras do próprio – e entrou no seminário quando me viu com outro homem. Mas uma vez, leitor amigo, não me julgue mal. Eu nunca assumi nenhum compromisso com nenhum desses homens. Eles assumiam comigo. Eu nem pedi desculpas. E nem teria porque pedir. Bill chorou durante duas semanas e 14 telefonemas desesperados. Não o atendi nenhuma vez. Só o ouvia na secretaria eletrônica. Eu vi que o Bill tinha perdido o juízo e agora de uma vez, o coração.
Bill, Tony, Ed.
Tive outros, mas com certeza esses foram os melhores.
Ed.
Estava tão bem. Tão novo e tão bonito.
Quando me viu sentada, meio bêbada, no bar ‘Passion’. Veio correndo pros meus braços contando a boa nova. Iria se casar. Estava apaixonado, com saudade de mim, eu estava linda e ele não me esqueceu.
Passion. Ele dizia que o bar combinava comigo.
Como pude resistir?
Eu não falei da minha roupa. COMO ELE PODERIA RESISTIR? Era o Ed. Ele nunca resistiria.
Fomos pra um motel barato porque eu me apressava em tirar as roupas.
E lá eu conheci o amor. Eu respirei o amor. Gozei o amor. Beijei o amor. E por fim.
Despedi-me dele.
Deitada naquele colchão duro, de um quarto feio, de uma rua que eu não conhecia.
Ainda nua, fumei um cigarro e esperei a coragem aparecer para então encarar as conseqüências da noite passada.
Era ele. Era o Ed que eu queria.
Sim. Iríamos ficar juntos.
Antonella.
Esse era o nome dela. A mesma maluca que casara com meu Tony meses antes, era a mesma que iria se casar com meu Ed. Quanta ousadia dela. Ter o meu sorriso.
Descartável. Uma réplica por mais que seja bem parecida com a original, é sempre uma cópia. E quanto a isso ela não tinha tanta ousadia assim.
Ed era o homem da vez. E pra sempre. Casei-me com ele apaixonada.

Deslumbrante. Entorpecida de um amor que eu desconhecia antes daquele noite de pecado.
Passion.
Era assim que eu agora o chamava.
Vocês apostariam nisso? Depois de tudo que expus sobre mim, desgraçado leitor, vocês apostariam em mim?
Não o trai. Isso não. Não sei bem se posso dizer isso, pois olhei para outros homens – e isso já é uma traição - e deixei ser olhada. Fiz por onde. Não o abandonei logo no inicio, por preguiça.
Mas não durou mais que um ano, se bem me recordo.
Ele viajou a negócios e quando voltou eu havia ido embora.
Fui para chamada pra um desfile na semana de moda em Paris. Era uma chance única na minha carreira. Fui.
Não deixei um bilhete. Um telefone e nem um vestígio.
Era como se eu nunca tivesse existido.
Não sei que fim teve Ed.
Sei de uma maluca. Uma que tocava nos bairros sombrios de Nova York.
Aquela maluca parecia seguir meus passos sempre uns dez degraus abaixo.
Eu acordei cedo com energia pro desfile e a encontrei nos arredores da minha já nova casa. Com um violão e um vestido de cetim estranho. Parecia uma cigana. Suja. Era alma lavada, carne, dente, ossos e coração. Era um coração despedaçado, dilacerado, abandonado. E com muita munição.
Antonella era pena. Era dó. Era uma fúria que eu sei lá de onde vem.
Uma dor que me estremeceu e que mexe comigo até hoje.
Era um banho de agua fria em um coração quente e descuidado.
Palavras que se voltam para mim como o mais duro dos corações.
Geladas.
Como uma arma, na mão de uma pessoa que sabe bem o que fazer. E sabe exatamente quem ferir.
Capitu.
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