sábado, 29 de maio de 2010

A vida é uma ópera.

Querido Bentinho, peço licença para falar-te..

Estou aqui para lhe escrever uma daquelas cartas que nunca enviamos, e que quando enviamos ou nos envenenamos antes que elas cheguem ao seu fiel destino, ou enlouquecemos se não forem extraviadas. É isso.

Você foi o amor da minha vida, a pessoa que com certeza eu mais amei em toda ela e que talvez nunca tenha sentido um mísero terço do que eu senti... do que eu sinto! E que as vezes acho que nunca deixarei de sentir.
O meu amor, me consome, dói, me enfraquece, meus ossos não tem mais forças, não tenho condições nem físicas nem psicológicas pra ele, não me sinto mais plenamente alegre, e mesmo assim, seu amor, Amor, me ilude. Já me acostumei e desisti de desistir dele. Meu amor é bem mais forte do que eu. E se um dia eu andava junto com ele, hoje ele me arrasta. E não consigo nem argumentar. E nem ousaria. Como disse já me acostumei, aprendi a ser feliz desse jeito, com ele e sem você.
Ah, e uma coisa que não poderia deixar de falar aqui. Eu largaria TUDO por você. Eu sei, Amor, que você nunca teve a intenção de fugir, nem nada semelhante, ainda mais comigo, eu, que fui só mais uma em meio a tantas iludidas, tantas que te amaram, mas só pra você saber, Amor, e mais ninguém, eu fugiria. Eu abro mão de tudo pra ter você. De tudo.
Eu tive bulimia, não admitia viver sem você, pensei em tirar minha própria vida. Achei que minha vida tinha acabado. Você sabe bem o quanto sou dramática.















Continuação (18/05/2010)

Querido passado,

Hoje, quase um ano depois, e só depois de todo esse tempo que estou conseguindo terminar essa carta. Não pense você, querido ninguém, que fiquei estagnada, que fiquei lhe esperando em um sótão escuro enquanto lá fora passavam as estações e você se divertia. Não. Eu vivi!E como vivi! Apaixonei-me centenas de vezes e criei laços, fui muito amada, e muito desejada por muitos. Amor não, esse foi um luxo só seu, e não vanglorie-se por isso, eu fui uma tola. E talvez nem tenha sido você o responsável. A sua graça era que você era um crime, era proibido. A idéia de fazer algo que não podia me causava êxtase. Você foi um capricho meu e um longo stress psicológico. Não se sinta tão importante. Eu te amei sim! Mas amaria qualquer um que falassem que não era bom o bastante pra mim. E com toda certeza, você não era. Você foi um capricho meu, e eu fui uma conquista sua. Acho que afinal de contas não somos tão diferentes assim. A diferença de nós dois, é que eu superei esse atraso mental, esse prazer de ‘aproveitar-se’ dos outros, você não, você continua por aí desfilando com um Don Juan e tentando garantir pro próximo final de semana, olha só pra você, nem bonito você é. Nem bonito.
Vai poder dizer por aí que te amei, pode falar, estou esperando você falar: ‘posso não ser um nada, mas você perdeu muito tempo em seu quarto sozinha pensando em mim, enquanto eu estava por aí pensando em outras’... Está certíssimo em dizer isso, mas eu superei, não superei? Então... Zombe o quanto quiser do meu passado, enquanto eu rio da sua cara agora.
Está certíssimo em dizer isso, principalmente na parte que afirma ser um nada. Nada! Nada que eu fazia te agradava. Só meu amor deveria ter bastado pra te fazer feliz. Mas você pensa que é bom demais pra ser de uma só né? Pois então, vai acabar sozinho! Você vai estar no diário de muitas, e no pensamento de muitas também, assim como está em algum lugar do meu. Mas no final todo mundo acaba percebendo que um cara como você não merece um coração inteiro, merece uma parte do cérebro, aquela parte que diz pra gente não confiar de primeira, (que pra mais tarde) não ir pra cama no primeiro encontro, não ser fácil, não se entregar logo de cara, essa parte... Essa parte é só sua ta? E acredite, no meu é bem pequena, por que por mais que eu não seja aquela de antigamente, ainda sou uma romântica... Mas a parte sem graça do cérebro eu reservei pra você. Sinta-se em casa.
No meu coração ainda tem vestígios seus, dos beijos doces, e das promessas que soaram verdadeiras, tudo isso ainda fica num canto junto com a cicatriz que você deixou, mas que não dói mais. Ela só fica lá, pra eu me lembrar da primeira pessoa que eu amei demais, que eu fiz de tudo, que eu faria qualquer coisa, mas é uma cicatriz sem rosto, eu presto muitaaa atenção nela, mas consigo ver tão pouco. Sim, essa cicatriz é sua. E se isso te deixa feliz, você me machucou. Ela está aqui por SUA CULPA. Isso te deixa feliz? Não vou dizer que é bom ver alguém que fica feliz por isso, mas depois de todas as coisas que eu disse que talvez não tenha sido muito agradável, digo-lhe algo que talvez te conforte, daqui de cima, eu vejo milhares que nem você, quando olho pro fundo do poço, pro chão, pra baixo, enxergo MILHARES de corpos sem alma, sem coração. Você deveria procurar melhor, querido lixo, aí em baixo. Quem sabe você consegue ser feliz por aí mesmo. Com alguma que nem você. Mas, se um dia você cansar dessa imundice com que já se acostumou, me procura, eu vou adorar mostrar pra você que sempre vale mais a pena ser sincero como eu fui. Que só você sai perdendo nesse seu infinito joguinho. Eu ganhei experiência todo tempo ao seu lado, você, já que não me amou nem nada, só perdeu o seu.

Daqui de cima, não sua, mas eterna...


Capitu.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Capitu.

Tolos são aqueles que procuram entender.











A ambigüidade de Capitu não foi feita para nos dar pistas, mas precisamente o contrário, foi feita para nos desnortear.

Prometo .

Prometo contar-lhe muitas mentiras. Se me deixar.
Prometo não agir feito uma boba sempre. Prometo comportar-me melhor.
Prometo não envergonhar-te.
Prometo que lhe darei o meu coração.
Confiarei em seus cuidados calmamente. Prometo confiar.
Prometo não afastar-me quando ficares velho.
Prometo ficar ao seu lado.
Prometo beijar-te quando quiseres.
Amar-te todos os dias.
E em troca disso. Promete não me deixar?
Prometo que não lhe perturbarei mais.
Não lhe peço grandes coisas.
Prometo não lhe incomodar com grandes coisas.
Promete que não se incomoda?
Fique comigo e não prometa mais nada.
E sem que notares, será feliz. Você. Comigo.

Capitu.

Volto-lhe a dizer .

"Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exata daquele gesto. Devia tê-la marcado; sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres."
Sempre meu, Bentinho.












Diga-me exatamente o que sinto.
E o que sente.
Tente não ser romântico demais. Que isso me afasta.
Tente ser romântico o bastante.
Não faça nada que eu não faria. Não cante em Bar-Karaôke.
Eu não faria isso.
Tenha muitos amigos.
Muitas mulheres.
Só não se esqueça do seu coração. Que você tem um só.
E esse, já é meu.
Me ligue quando sentir saudade.
Não me ligue pra saber se ta tudo bem.
Vai estar. E caso não esteja, você não precisará ligar. Eu ligarei.
Não peça desculpas por não ter sido a pessoa que mais me amou. Peça por ter sido a que eu me entreguei. Você não tinha esse direito.
Mas como nada entre nós era direito.
Peça perdão. E eu o darei. Como sempre lhe dei.
Diga algumas bobagens.
Algumas piadas. Alguns palavrões.
Conte vantagens e mentiras. Seja incoerente com isso, persuasivo, absurdo. Conte coisas mirabolantes, fantasiosas, impossíveis. E não se preocupe. Como sempre, acreditarei em tudo.
Saiba dançar.
Seja culto. Seja sexy. Você é. Você sabe que é.
Mas seu charme em meio a tantas garotas, mentiras e cigarros, meu Amor, se perde.

Não diga que sou sua. Eu sou. Mas por favor.
Não diga isso.



Capitu.

Nossas infinitas peripécias.

Mexo com sua cabeça.
Deixo-te com um milhão de interrogações.
Não ligo no dia seguinte e nem atendo seus telefonemas.
Do seu lado eu ajo feito uma louca. Boba.
Você fica mudo. Estagnado.
Sorrio sempre com maldade.
E me torno seu vicio.
Você tenta parar, cada vez que me procura.
Você tenta voltar atrás quando da um passo adiante comigo.
E você enlouquece.
Perde-se no veneno dos meus beijos. Do meu ser.
Tenta deixar de lado. Deixar-me de lado.
Não consegue.
Já estou a sua frente. E você, Amor, corre atrás.
E a cada ‘não’ dito por mim, Amor, você pira.
E se deixar-me de lado, Romeu, não te preocupe.
Não morrerei ao contemplar sua ausência.
Coloco-te em joguinhos.
E você joga.
Brinco com teus sentidos, e você, Bentinho, se nega.
Leva-me a sério demais, quando eu, me divirto.
Meus sentimentos são os mais sinceros.
Mas você, querido, os torna parados.
Você faz a profundidade de minhas intenções, e a graça de meus sorrisos, chato.
Raso.
Mexo com sua cabeça. Deixo-te um milhão de interrogações.
E você, Amor, responde.
Aconselho-te a me esquecer.
Porque você, Basílio, simpatiza cada vez mais comigo.



Capitu.

Da sempre tua, Capitu.

Permaneço a sua espera inquieta.
Permaneço a sua espera a esperar por outros.
Esperar por você.
Não escondo minhas virtudes. Muito menos meus pecados.
Mostro-os todos. Os escancaro.
Deixo-te boquiaberta e saio a rodopiar.
Confesso-lhe meus segredos mais íntimos.
Não lhe conto nada.
Os dias passam, e você Bentinho, me ama.
Vivo meus sete pecados capitais.
E te amo. Como te amo.
E você, Amor, acredita.

“Capitu refletia. A reflexão não era coisa rara nela, e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos. (...) Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha idéias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam-se hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos.”
Dom Casmurro.